Argumento viciado

Sobre a sustentabilidade do Serviço Nacional de Saúde, o secretário de estado Leal da Costa  fez umas contas e explicou que vai avançar com ainda mais legislação a limitar a venda e o consumo de álcool e tabaco porque as doenças associadas ao consumo destas substâncias (falou também de diabetes mas o bolo-rei parece para já estar debaixo do radar) custam muito dinheiro ao Serviço Nacional de Saúde e, afinal, são evitáveis.

Deve ser disto que a Constituição fala quando nos diz que caminhamos para o Socialismo: as escolhas de vida dos indivíduos passam a ser sindicáveis pelo estado porque o estado será, mais tarde responsável por pagar o tratamento de patologias associadas a essas escolhas de vida.

Mas quando usamos este tipo de argumentos, convém ponderar todas as variáveis. Tenho muitas dúvidas que a postura do governo face ao tabaco, álcool e afins deva ser pautada por considerações financeiras como parece argumentar o senhor secretário de estado, mas se fossemos por esse caminho teríamos de ter em consideração este (via PC) estudo. Que nos diz que por os fumadores viverem menos tempo custam menos dinheiros aos sistemas de saúde apesar das patologias associadas. A sério: Smokers have more disease than nonsmokers, but nonsmokers live longer and can incur more health costs at advanced ages. E tanto quanto se percebe os autores nem entram com os impostos do  tabaco nas suas contas. Portanto, a política racional segundo este estudo (outros haverá a fazer) é a de incentivar o consumo ao fumo para racionalizar os custos dos serviços de saúde.

Isto faz algum sentido? Claro que não. Fumar faz mal e nenhum governo deve incentivar o que faz mal, por muito mal que estejam as finanças do SNS. Mas também não está correcto o estado ter um sistema de saúde compulsivo e usar as contas desse sistema para se meter na vida das pessoas e ditar regras de comportamento. A prevenção de doenças deve ser feita sem recorrer a este tipo de argumentos (facilmente falsificáveis) e dentro de limites que respeitem a liberdade individual dos cidadãos. Como todas as políticas públicas, aliás.

 

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