Socialismos

O Parlamento Europeu deverá impedir o fim das quotas de importação de cana de açúcar para 2015 e estenderá a sua vigência até 2020 para permitir que os produtores de beterraba se adaptem à liberalização do sector.

É nestes dias que me perturba menos que a União Europeia esteja em crise. De alguma maneira, merece-o.

As indústrias deveriam competir pelos melhores meios, as melhores inovações, os melhores processos e por convencer mais consumidores. Na Europa não. As indústrias florescem se tiverem apoio político, se tiverem mais amigos no Parlamento Europeu ou se conseguirem melhor agência de lobbying. O sucesso dos seus processos, o custo e a qualidade dos seus processos é secundário. E isto é factor de empobrecimento. Porque a aposta em produtos que usam mais recursos (humanos e de capital) que outros, ainda que com a intenção honesta de “proteger” uma determinada indústria, é destrutiva para todos nós.

Se quiser um exemplo práctico, imaginemos que lá em casa tem de escolher onde comprar o seu arroz. E que para qualidade idêntica encontra arroz a um euro e arroz a dois euros o quilo. Certamente que escolhe o arroz a um euro e fica com mais um euro para comprar outros produtos (azeite, cebolas ou bolachas,p.ex.) ou para poupar.

Se o produtor que que só consegue vender a dois euros for bater à porta de Bruxelas e encontrar quem lhe dê ouvidos para o proteger da concorrência o que acontece? Limites à produção do nosso produtor mais barato (por exemplo por quotas de importação) mantêm os preços artificialmente altos mas os consumidores dificilmente notam ou se apercebem que é por razões políticas. Os produtores de azeite, cebolas ou bolachas não se queixam da falta de mercado porque o efeito invisível de destruição de riqueza não tem vítimas visíveis na economia. O consumidor compra mais caro mas que se lixe o consumidor. E claro, ninguém é porta-voz dos empregos que não se criam em empresas como a RAR que no Porto funciona abaixo da capacidade instalada por falta de matéria-prima.

Se empobrecemos é também por estas razões. Claro que em concreto para os produtores de beterraba há um problema e ficam fora de jogo. Mas isso é mesmo da vida. Os tecelãos também ficaram sem emprego quando a máquina a vapor automatizou a produção de tecido. Os aguadeiros deixaram de ter o que fazer quando se inventaram os garrafões de água e os produtores de carroças bem se podiam queixar ao senhor Ford por perderem clientes. Mas no entanto foram estes ganhos de eficiência que permitiram que se libertassem recursos económicos para que o mundo andasse para a frente. E se ter roupa a preços acessíveis, água engarrafada e até um carro é hoje comummente aceite como normal, é porque houve quem usasse o seu engenho e arte para ser melhor que outro.

Na Europa que temos é difícil.

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