Avaliando os programas

Olhando hoje para trás, olhando para o programa grego, o português e o que se anuncia para o Chipre já é possível percebe o raciocínio da troika para as intervenções na zona euro:
A primeira foi entre o atabalhoado e o remendado. É marcada por várias adaptações, falta de vontade política e sem resultados que se apresentem.
A segunda, a nossa, passou por uma tentar contrair a procura interna. De facto, face aos desequilíbrios e à falta de financiamento externo é uma solução razoável mas que provoca efeitos tão desoladores ao nível da economia que dificilmente algum responsável político a aceitaria em condições normais. Podia ser pior? Claro que sim. Um default, o fim do acesso aos mercados por décadas e a saída do euro teria consequências bem mais desastrosa. As nossas condições eram, portanto e face às alternativas, longe de normais pelo que se percebe que as aceitássemos. Mas nenhuma previsão sobre o efeito na economia acertou o que tornou e torna a gestão de expectativas um pesadelo. Não sabemos quem é primeiramente responsável pelas previsões optimistas, se os dois governos que lidaram com o programa se a troika, mas se tivermos em conta que a redução do défice nem andou perto do acordado e os efeitos foram muito piores que o inicialmente estimado podemos perceber sem grande problema que os modelos usados estavam ao lado da realidade.

O terceiro programa que conhecemos este fim-de-semana, o cipriota, passa por medidas nunca vistas e que cá só têm paralelo nas propostas do Bloco de Esquerda de taxar as fortunas. Ao “atacar” os depósitos bancários, os eurocratas assumem que estão dispostos às   mais radicais medidas para “salvar” o euro. O programa cipriota, na ordem duns míseros 10 mil milhões de euro, será financiado no que aos bancos diz respeito por cerca de 5 mil milhões tirados aos depositantes. Repare-se nas ordens de grandeza: em Portugal, um programa de 77 mil milhões usou cerca de 12 mil milhões (ca. de 15%); no Chipre, de 15 mil milhões, um terço é para a banca. Repare-se também que em Portugal os bancos terão de devolver o dinheiro utilizado (e tudo indica que não se chegará a utilizar o total do disponibilizado) a juros pouco simpáticos, enquanto que no Chipre a solução parece passar por devolver, pelo menos metade, a partir dos lucros da exploração do gás natural (que ainda tem de provar a sua rentabilidade). Ironia das ironias, tudo indica que no Chipre o problema dos bancos está relacionado com fundos de dívida grega que foram “perdoados” e que deixaram os bancos cipriotas a descoberto.

Aquilo que parece é que a troika olhou para o problema dos países endividados e desenhou formas de imitar um processo de desvalorização da moeda. Cá contraiu a procura interna, no Chipre foi mesmo ao dinheiro depositado. Em ambos os casos estamos perante efeitos que se verificariam se a moeda desvalorizasse. O desastre é sempre menor que seria sem programa mas, mais uma vez, vale a pena perguntar se conhecemos bem as consequências dos vários programas. Pior ainda, o programa na Grécia teve efeitos que agora atingem de forma muito particular os cipriotas – um efeito que com certeza os cipriotas não conheciam.

Face a tudo isto posso bem dizer que não sei se quero mais Europa como solução. A Europa é responsável por vários dos momentos que levaram a todo este imbróglio: incapacidade em desenhar uma zona Euro que equilibrasse as várias economias, conivência e até incentivo de níveis de despesa e endividamento associado incomportáveis, programas assentes em previsões irrealistas e agora a colocação em causa da confiança no sistema bancário dos estados-membros.

 

Os contribuintes dos países europeus estão hoje a pagar as desastrosas acções dos seus governos nos últimos anos. Muitas dessas acções, como já se disse, tiveram o aval e até o incentivo da Europa. O que se desejaria seria que, quanto aos estados, estes cortassem nas suas despesas deixando mais rendimento disponível aos cidadãos – e até agora ainda nenhum  país intervencionado baixou os impostos – ao mesmo tempo que se limitam as capacidades de endividamento dos estados para balizas que permitam às futuras gerações usufruir do direito a serem donos do seu presente. Quanto aos bancos a supervisão deverá exigir rácios de capital mais apertados, como Ricardo Reis oportunamente aqui defende, só assim baixa o risco do seu colapso e portanto o risco dos contribuintes terem de entrar com o seu dinheiro. Como nenhum país está disposto a deixar um banco “a sério” falir, o moral hazzard é pago por todos nós e tem de portanto ser reduzido.

Post-scriptum dum texto já longo: Não quero deixar de reafirmar que vende banha da cobra quem diz que, depois de termos chegado aonde chegámos, haveria uma forma indolor de voltar a uma normalidade. Não era possível. Às vezes diz-se que isto é um visão moral da política que pretende “punir” os povos pela irresponsabilidade passada. Nada disso. É caso para dizer: “É a economia, estúpido!” Não há como sair de anos após anos de descapitalização (e como não, numa época onde poupar e enriquecer é quasi-criminoso?) e de despesas não-produtivas (sector público) ou não rentáveis (“campeões do crescimento”, obras públicas, energias renováveis, etc) . A economia portuguesa tem a riqueza mal-distribuída e alimentada pelo endividamento público e privado. O desfazer desses desequilíbrios cria sempre uma recessão. A única surpresa (na óptica das previsões conhecidas) é que, com o programa da troika, ela seja tão forte e não relativamente suave como inicialmente projectado. E a pergunta que nos devemos pôr é se vale a pena suportar os efeitos que o programa nos trará ou se devemos avançar para um caminho mais radical, igualmente prejudicial e sobretudo imprevisível de ruptura com as instâncias europeias. Digo isto porque face ao proposto para o Chipre não vislumbro uma saída europeia diferente. Tudo o mais são ilusões.

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