Exames

Sobre a greve que está marcada para amanhã faço minhas as palavras do insuspeito Francisco Assis: “Incompreensível, indigno, inaceitável.”

Incompreensível porque o governo foi de encontro aos sindicatos ao garantir que o aumento do horário de trabalho para a função pública não se reflectiria no aumento de horas de aulas para os professores. Dito doutra forma: na generalidade da função pública o horário semanal de trabalho aumentará de 35 para as 40 semanas, na classe docente esse aumento de horário é acomodado na componente não-lectiva que em muitos professores já totaliza, somada à componente lectiva, mais de 40 horas. Ao mesmo tempo, no que diz respeito à requalificação, o governo aumentou as funções dos professores que são contabilizadas como componente lectiva garantindo que menos professores ficarão com horário-zero havendo várias vezes declarações de membros do governo (até do primeiro-ministro) que há disponibilidade de alargar este tipo de medidas para que nenhum professor fique sem horário – contrariando a impressão empírica que muitos terão de que até haverá professores a mais no sistema, face à constante redução de alunos.

Mas mesmo depois disto tudo poderíamos compreender razões dos professores para fazer greve. Nem que seja por solidariedade com os restantes colegas da função pública, como o próprio secretário-geral da FNE acabou por admitir. É indigno no entanto colocar os alunos que trabalharam anos a fio para este exame na balança da luta sindical – mais ainda quando admitidamente as razões não são relacionadas com o sector educativo. A UGT e a CGTP estão a usar os alunos para fazer política. Aliás quem tenha ouvido Mário Nogueira no fim da manifestação sabe bem que o objectivo das centrais sindicais é a demissão do governo – e que isto não se resolve adiando as negociações para Setembro, como alguém sugeriu. A greve é agora porque é nos exames que mais estragos causa.

E por fim é inaceitável porque desde o início o objectivo era levar o governo a ceder e a mudar a data do exame. E com isso abrir um simpático precedente: nunca mais um exame era marcado em definitivo até se saber a disponibilidade dos sindicatos de não marcar greve. Aliás já se ouve que é o governo que põe em causa a realização do exame – uma extra-ordinária inversão da causalidade: quem marca a greve marca a porque é em dia de exame. Depois não pode fazer de conta que não é nada consigo.

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