Fraude na criação de emprego?

Ontem no plenário da AR ouvi repetido um mito que se criou em torno dos resultados do -Eurostat sobre o desemprego: não há nada recuperação real do emprego no terceiro trimestre, porque o emprego criado é nos empregos de 10 horas/semana. O Ricardo Paes Mamede avança números concretos: entre o primeiro e o terceiro trimestre foram criados 434 mil (!) empregos deste tipo. Ora como isto não é emprego que valha, os dados apresentados são politicamente uma fraude porque é baseada na criação de emprego que nem é digno desse nome.

Será?

Há algo que julgo que salta à vista logo que é a magnitude dos números. Que raio se anda a fazer no terceiro trimestre de 2013 na nossa economia que leva à criaçao de 434 mil postos de trabalho com menos de 10 horas semanais? 434 mil é cerca de 10% da população empregada, não é uma flutuaçãozinha. Francamente, a primeira reacção que tive foi de achar que o INE se tinha enganado. Mesmo sendo o terceiro trimestre o dos meses de Verão não me parecia plausível a criação de 434 mil mini-jobs (micro, na verdade). Aliás, ao contrário: eu que tive um emprego sazonal na área do Turismo era exactamente no Verão que trabalhava fácil mais de 40 horas semanais. Ao contrário, quem tinha empregos “normais” (no sentido da sazonalidade) estava nesta altura, justamente, de férias. A experiência que eu tinha era exactamente inversa à dos números: o emprego de Verão é sazonal a favor das horas de trabalho e não a seu desfavor. Tem graça que foi essa experiência que acabou por ajudar a perceber os dados.

Há na verdade um pormenor na análise dos dados que depois distorce a análise toda. É pequeno, mas significativo: olhar para os dados que o INE apresenta, p.ex., neste quadro, subtrair os valores para o terceiro trimestre dos do primeiro trimestre e chamar-lhes “Número de empregos criados“. E para perceber porquê, olhemos com atenção para o que significam os dados do INE notando que a variável em apreço é a da “Duração semanal efectiva de trabalho”. O enfâse está em efectiva.

O INE, como é sabido, analisa o emprego e o desemprego por inquéritos e não pelos inscritos nos centros de emprego (por isso é que os dados do INE e do IEFP são sempre diferentes). Por isso também o INE tem mais dados sobre a população empregada. E distingue, p.ex., entre duração semanal efectiva, e duração semanal habitual de trabalho. Bom, e voltamos ao Verão: o que acontece, efectivamente, ao trabalho da maioria dos portugueses nos meses de Verão? Férias. Logo, em média, menos trabalho semanal efectivo nesses meses. Na verdade, por isso, o gráfico das variações não deve ser apresentado como o de empregos criados. Isso aplica-se ao total, mas entre colunas é perfeitamente natural que haja mudanças duma para a outra: quem no Verão está na coluna das 10 horas semanais por causa das férias, volta rapidamente à coluna dos empregos de 35-40 horas porque, repito, se está a falar de horas trabalhadas efectivamente e não horas habituais.

Posto isto, construamos outro quadro, olhando para as horas habituais.

Empregos

Voilá. Há menos 9500 pessoas com horário habitual de 1 a 10 horas semanais no 3T de 2013 do que no 1T. O grosso do emprego é nas 40+ horas. (Mas não é 40 horas o máximo legal? Recordo que falamos de respostas a inquéritos e que é razoável que haja muita gente que considere que de facto trabalha mais do que 40 horas semanais, o leitor provavelmente é uma delas.) Mais, como disse de início, a sazonalidade parece-me beneficiar – no sector do Turismo da Hotelaria e da Restauração, por exemplo – a existência de horas extraordinárias nesta altura.

PS: Como é evidente esta explicação toda só é necessária porque os dados considerados pelo RPM comparam o terceiro trimestre com o primeiro. Daqui resulta uma distorção nos dados justamente pelo efeito da sazonalidade. Se olhássemos desde início para os períodos homólogos nada disto se passaria.

PPS: O Pedro Romano já tinha chegado às mesmas conclusões juntando outros dados de suporte.

 

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