Jogo de Sombras

Carlos César hoje, à saída duma reunião com o Ministro dos Assuntos Parlamentares, aproveitou para fazer um ponto-de-situação sobre o acordo de governo da esquerda. “O” acordo.

E, reiterando o que António Costa dissera logo na noite eleitoral, explicou que o PS ainda não fixou o seu voto quanto às moções de rejeição do Programa de Governo porque só as acompanhará se tiver uma alternativa viável. Ora «como não está nenhum acordo fechado», não há [ainda] «uma alternativa duradoura e estável». São palavras responsáveis e que mostram que o PS não esquece o que disse logo após as eleições. E mostra também que Cavaco tinha razão quando indigitou Passos Coelho para formar governo. Afinal, até ao dia de hoje e até se produzir dito acordo, o governo liderado pela coligação que ganhou as eleições ainda tem a sua aprovação garantida, porque o PS não viabilizará nenhuma moção de rejeição ao programa. Amanhã será diferente? Pois possivelmente, se o acordo existir – eu acho que vai existir. E claro que César está sobretudo a falar para o PCP, p.ex., para o pressionar. Para o BE, para que este deixe de divulgar as medidas acordadas. Ou para a oposição interna para a baralhar. Tudo o que se vai dizendo ao longo deste processo tem múltiplos destinatários, o último dos quais o eleitor que se vê parvo perante o circo montado.

Por fim o que se demonstra das palavras de Carlos César é que, mais uma vez, António Costa foi algo impreciso nas palavras que usou, desta feita quando foi a Belém falar com o Presidente da República. Costa disse na altura que «estão criadas condições para PS formar Governo que disponha de apoio maioritário na Assembleia da República». Pois aparentemente não estavam. E se cá fora, à imprensa, Costa estaria a falar para o BE e o PCP, para os pressionar, para a oposição interna, para a calar e para a coligação para a desestabilizar, lá dentro António Costa falou ao Presidente da República. Não sabemos o que lhe disse, nem temos de saber. Mas se lhe pintou um quadro que afinal não é exactamente o que tinha no atelier, então pode estar mal a relação entre o líder do segundo partido mais votado e o Presidente da República.

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