Foi Berlim libertada pelo exército vermelho?

A indignação do dia, pelos vistos, é com um cartaz da JSD. E como todas as indignações do dia é ridícula. O cartaz em questão mostra Costa, Catarina Martins e Jerónimo de Sousa com dois símbolos do comunismo atrás de si: Lenine e o exército vermelho. Ora como todos sabemos, não se brinca com Lenine nem (muito menos!) com o exército vermelho.

"Estou bem assim, Luís?"

“Estou bem assim, Luís?”

Sobre Lenin nem me vou debruçar. O fundador da União Soviética e da Checa deixou na história um rasto de sangue e de miséria que fala por si. Não sei se Catarina Martins gosta dele ou não, mas també não vou investigar. Até porque as mais violentas reacções são à foto atrás de Jerónimo, com a bandeira soviética hasteada no Reichstag alemão em 1945. Porque, dizem, se trata da libertação de Berlim e a JSD não sabe o ridículo a que se expôs.

A sério?

Eu não sei se quem escolheu a foto sabia ou não o que ela representa, é para o lado que durmo melhor. Mas ela é bem escolhida se o propósito é associar Jerónimo ao regime soviético (se essa associação é justa ou não é outra questão). Nem o PCP nem Jerónimo de Sousa alguma vez se distanciaram dos crimes soviéticos e em particular dos crimes do exército vermelho. E se é um facto que Hitler foi derrotado no momento em que esse exército chegou a Berlim, vindo de Leste, é um reescrever da história chamar-lhe libertação ou celebrar esse dia. É que trocar um ditador – por muito horrível que fosse, como foi o caso de Hitler – por outro – e Estaline jogava com Hitler na liga dos crimes contra a humanidade – não é propriamente ficar livre ou ficar melhor. É trocar uma bota com uma suástica por outra com uma foice e martelo. As duas pisam a liberdade e a vida. Para o povo é igual.

O exército vermelho, nesse sentido, foi apenas visto como um exército libertador na propaganda da RDA, regime em que questionar o exército vermelho ou o partido comunista (o local ou o soviético) dava direito a uma simpática visita às caves da polícia política. Para os povos que ficaram do lado de lá da cortina de ferro, o fim da Segunda Guerra Mundial foi apenas um episódio numa longa travessia pela opressão que se iniciará com a chegada dos Nazis e só terminaria com o fim dos regimes comunistas. Não é por acaso que polacos, checos, estónios, etc, etc, façam questão de desde a verdadeira libertação acabaram com os monumentos estalinistas que os ocupantes lhes deixaram (até acho mal, mas adiante, estamos a tentar comprovar um sentimento).

Insinuar, chamando-lhe libertação, que a chegada do exército vermelho foi libertadora para o povo de Berlim é revisionismo e mostra uma enorme falta de respeito pelas vítimas dos soviéticos. Refira-se por exemplo as 100000 mulheres violadas pelo soldado vermelho que depois o seriam novamente pelo regime comunista da RDA que proibia qualquer crítica ao ocupante – ao contrário da RFA onde a tematização dos crimes cometidos no pós-guerra foi feita. Mal acabou a RDA, aliás, Berlim mudou o nome a uma rua em particular. A Strasse der Befreiung – Rua da Libertação – no que fora Berlim-Leste mudou de nome em 1992 – dois anos depois da reunificação, três depois da queda do Muro.

Que raio de regime livre constrói um muro para impedir o seu povo de procurar a liberdade? Pois. A associação da JSD está bem feita.

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