Sampaio da Nóvoa

O Observador arranjou um pobre diabo (Rogério Casanova) que foi ler as três biografias de Sampaio da Nóvoa. O resultado?

Simon Hoggart, o falecido correspondente parlamentar do Guardian, cunhou a sua “Law of Absurd Opposites” para aferir a vacuidade do discurso político: quanto mais próxima do “0” é a probabilidade de algum eleitor concordar com o sentimento expresso caso os termos fossem rigorosamente invertidos, mais desnecessário é expressar o sentimento. Um exemplo: se nunca na história da humanidade um candidato a um cargo público nos informou que pretendia “lutar por um país pior”, será escusado garantir-nos o contrário – e todavia quase quase todos fazem.

Não é tarefa fácil comunicar uma retórica de substância dentro deste aflitivo conjunto de restrições.

Política de Vida, publicado pela Tinta-da-China em Dezembro, colige a “Carta de Princípios” de Sampaio da Nóvoa, as transcrições de três discursos, incluindo o de apresentação da candidatura, e um breve texto autobiográfico. São 142 páginas ao longo das quais se esperaria que uma candidatura que procurou desde a origem diferenciar-se dos hábitos e práticas de sempre comunicasse retoricamente essa diferença. Eis o resultado.

Para começar, alguns auxiliares de orientação cronológica: “A esperança é hoje”; “Este é o tempo do futuro”; “Chegou o nosso tempo, o tempo de acordar, o tempo de despertar”.

Depois, aquilo que é preciso: “É preciso trazer a vida para dentro da política, com humanidade. É preciso unir uma sociedade rasgada, juntando os portugueses e as portuguesas numa luta comum, sem medo de existir” (há outras coisas que são precisas, nomeadamente “construir pontes”).

De seguida, o tipo de Presidente que será: “Serei Presidente com todos os portugueses, cuidando de maneira especial dos mais frágeis, dos mais sacrificados pela crise, dos mais desprotegidos”; “comprometo-me a ser um Presidente presente, próximo das pessoas, capaz de ouvir, de cuidar, de proteger”.

Promessas (poucas, mas boas): “Prometo agir com integridade e honradez”; “Há muitas promessas que não posso, nem devo fazer, mas o compromisso de estar sempre ao lado dos portugueses, sobretudo dos mais desprotegidos, é um compromisso solene, absoluto, que quero assumir por inteiro”.

Por fim, alguns “compromissos” e “propostas concretas”, para lidar com problemas concretos: “Temos de encontrar soluções” (para a dívida); “devemos associar-nos a uma reflexão” (sobre o futuro das políticas económicas na União Europeia); “estarei especialmente atento” (a situações que reduzam a soberania nacional); “não me resignarei” (perante a pobreza); “não serei insensível” (ao sofrimento); “dedicarei uma especial atenção” (à transparência e responsabilidade na vida pública); “estarei particularmente atento” (à igualdade); “serei um Presidente empenhado” (na dignificação das Forças Armadas); “procurarei promover” (uma ligação entre o país e as Forças Armadas); “não serei um espectador impávido” (perante a degradação da vida pública); “não me resignarei” (perante a destruição do Estado Social).

E como bónus para todos os que se sentem alarmados com excessos de especificidade e originalidade: “Empenhar-me-ei na resolução das questões nacionais mais graves. Tentarei antecipar os problemas, propor, agir para que se alcancem soluções sólidas e duradouras”. “Apoiarei todas as mudanças que façam de nós um país mais moderno e mais justo, mais competitivo e mais capaz”.

Vale a pena ler o texto completo.

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